Beirute

Para comer? Líbano, ao ponto, por favor!

quinta-feira, abril 19, 2012

Para mim, comer está entre os TOP 5 da vida. Dado o meu porte atlético e a minha sempre disposição para cozinhar, dá para perceber que eu gosto mesmo do babado. A Lu tá de prova: uma das primeiras coisas que falei quando decidimos ir ao Líbano foi "voltarei rolando". Graças ao meu (ainda) jovem organismo e às longas caminhadas que geralmente acontecem em viagens internacionais, consegui voltar com o mesmo peso e, quiçá, até mais magra. Rá, mentira!

A cozinha libanesa é riquíssima em ingredientes e aromas. Localizada geograficamente em uma região privilegiada, com suas quatro estações bem definidas, o Líbano produz ingredientes perfeitos como o tomate, o pepino, o limão e a lima, cebolas e azeitonas, itens estes usados largamente na maior parte dos pratos preparados nos lares libaneses. Com influência das culinárias mediterrânea, europeia e oriental, o Líbano é marcado também pelas especiarias e temperos, que são encontrados por lá aos montes: snoobar (pinoli), zaatar, misturas aromáticas de pimentas e noz moscada são apenas alguns deles.

A riqueza dos mercados lembra muito a variedade de ingredientes frescos que temos no Brasil
Ao visitar a região do Oriente Médio, você perceberá que lá cultivam-se hábitos alimentares bastante particulares. A coalhada por exemplo, aquele creme branco feito de leite de cabra ou de vaca, fervido e fermentado, é servida em todas as refeições, do café da manhã à janta. Servida fresca, seca (quando o soro é drenado), cozida, salgada ou adoçada, faz um bem danado à saúde e é muito gostosa. Outro hábito é comer salada no café da manhã. Desde Dubai, já havia percebido a salada nos buffets de manhã e no Líbano me rendi à bonita. Tomates cereja vermelhos e doces, pepinos crocantes, rabanetes ardidos na medida certa e hortelãs frescas fizeram meus dias mais felizes. Ah, tudo isso com muito azeite libanês, um tesouro nacional.

Saladinha fresca pela manhã, além do ovinho cozido. Amo ovo. Quem não? :)
O pão sírio, ou pita, é um capítulo à parte. Assim como a coalhada, ele também está presente em todas, repito, TODAS as refeições. Uma curiosidade: em muitas culturas ele ainda é usado no lugar dos talheres. :) Alguns restaurantes, inclusive, já trazem dois ou três pacotes com quatro folhas de pão sírio, cada, assim que você chega à mesa. Com o pão você come o seu cordeiro, sua salada fatouche ou as famosas pastas feitas de vegetais, como o hommos, preparado com grão de bico, alho, azeite e tahine (pasta de gergelim), o babaganoush, feito com beringela assada ou grelhada e tahine, e também uma pasta de alho, bem forte, que acompanha carnes. Isso só para começar!

No sentido horário: pão sírio, hommos, babaganoush e pasta da alho
Outra delícia que é vendida em muitos lugares é a manoush, que é chamada de "pizza" libanesa -- por quem não é de lá, obviamente. A parada é a seguinte: de manhã todo mundo come manoush. Vamos dizer que seja o pão na chapa do Líbano. Ela é feita na hora, com uma massa de trigo e assada em uma chapa. A folha fica bem fininha e crocante, e recebe vários recheios, mas o mais popular é de zaatar com azeite. <3

À esquerda, manoush de zaatar e à direita, de carne. Não saberia dizer qual é a melhor :)
Ah, as carnes, de bois ou de carneiros, tanto faz. Delícia! E olha que eu não sou de comer muita carne... Macia e muito especial, a maior parte consumida nas casas é conservada em manteiga. Isto me remeteu às histórias que minha mãe contava que, no sítio, a carne de porco era mantida em banha. Funciona da mesma maneira. Estas são reservadas para o preparo de recheios de esfihas, manoushes, charutinhos de folha de uva etc. Ah, charutinho de uva quente? Esqueça. Lá eles servem as porções regadas (literalmente) em azeite, além de frias. É realmente muito difícil encontrar charuto quente, só nas casas das pessoas mesmo. Outra delícia, adivinhe o que é? Churrasquinho gregooooo! Quer dizer, shawarma. Hahaha. Só tenho uma coisa a dizer: coma.

Na coluna da esquerda: charuto de folha de uva, kibe na coalhada e sanduíche shawarma
Além disso, consome-se muito o kibe cru. Nos deparamos diversas vezes com carnes tão, mas tão vermelhas e descobri o segredo: além da carne ser moída (com o trigo, hortelã e temperos) duas vezes, ela é moída com gelo! Isso intensifica a cor da carne e mantém o frescor. Demais, né?

A cor não é linda? :) O pozinho marrom é pimenta síria e as sementes são pinolis crus
O café turco é algo muito especial também. Espesso, tem um sabor super intenso. Para prepará-lo, primeiro moe-se o café bem fininho e ele é então misturado à água fria, junto com cardamomo moído. Ao ser levado ao fogo, ele deve levantar fervura três vezes. Em seguida, ele "descansa" por um minuto para que a borra baixe para o fundo da panelinha (ibrik). Em seguida, é só servir. É delícioso.

 

E agora, onde comer tudo isso? Vamos à uma lista singela com dicas de lugares que amamos:

Barbar - Rua Spears, Hamra
24 horas / Delivery / Somente dinheiro / Custo médio pessoa: R$ 25 / Cardápio em inglês: não
Uma das maiores redes de fast food do Líbano. Salão grande, simples, porém com um extenso cardápio com preços a partir de US$ 1. Mantém lojas por toda a cidade, além de casa de sucos, manoushes e sorveterias. Classificar o atendimento depende do seu humor. Os garçons não falam inglês, logo, tenha paciência -- coisa que falta neles

Petit Café - General de Gaulle Avenue, Raoucheh
das 9h às 14h / Aceita cartões / Custo médio pessoa: R$ 15 / Cardápio em inglês: sim
Café com franquias em vários países do Oriente Médio. Na avenida da Pigeon's Rock, a vista para o mar Mediterrâneo é incrível. Ideal para ver o por do sol fumando arguile e tomando café turco. Atendimento razoável e poucos garçons falam inglês.

Laziz - Hamra Street, Hamra
das 8h às 00h / Aceita cartões / Custo médio pessoa: R$ 30 / Cardápio em inglês: sim
Cardápio com releituras dos clássicos árabes. O ambiente, com sofás e almofadas, é ideal para um almoço ou lanche no fim da tarde, fumando um arguile. Ótimo atendimento, porém, nem todos os garçons falam inglês.

Ka3kaya (Kaskaya) - Makdessi Street, Hamra
das 9h às 2h / Aceita cartões / Custo médio pessoa: R$ 45 / Cardápio em inglês: não
Local charmoso com cardápio cheio de lanches americanos. O ambiente é acolhedor e a comida tem um tempero delicioso. Para finalizar, peça um chocolate quente de Nutella ou charchabil, feito com leite, chá, mel e gengibre. Bom atendimento, porém, nem todos os garçons falam inglês.

Café Hamra - Hamra Street, Hamra, 961
das 9h às 00h / Aceita cartões / Custo médio pessoa: R$ 35 / Cardápio em inglês: sim
O local é famoso por ter um dos melhores arguiles da cidade. O ambiente é moderno, grande e muito charmoso. O cardápio é bastante ocidental, portanto, não se decepcione. Lá é bacana para observar um pessoal mais contemporâneo de Beirute. Atendimento razoável com garçons um pouco desatentos.

Acredito que o nosso paladar seja um dos atalhos mais eficazes para atingir nossa memória. Em uma viagem para conhecer lugares tão diferentes, busque se livrar de traumas e más recordações palativas. Por vezes, cultivamos hábitos alimentares que não sabemos o motivo de tê-los. Deixe isso de lado e passe uma borracha no seu estômago e mente. Abra os olhos, o nariz, esteja com as mãos livres e prepare sua boca para experimentar e se apaixonar. Comida boa é comida que abraça a nossa alma. E assim é no Líbano.

Bom apetite! :D

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