Argentina

Dia 3: Buenos Aires (Argentina) - Um sapato, um cartão e uma Milonga

quinta-feira, maio 31, 2012

Depois de todo o corre-corre ao desembarcar, pegar as malas, sacar dinheiro, esperar a "nossa" taxista Soledad, fazer o check-in no hotel e tudo mais que a Ana contou no último post, deixamos a Soledad nos esperando na porta, enquanto a Ana se arrumava e eu decidia em qual loja de sapatos de Tango ir. E o taxímetro rodando.

Assim que a Ana ficou pronta, entramos correndo no taxi da Soledad e partimos para o Coliseu, para a Ana assistir ao show do Jorge Dextler. De lá, fomos atrás do meu sapato. E o taxímetro rodando.

Pra quem não sabe, faço aulas de Tango há um bom tempo, e estava doida por um sapato profissional (que eu acreditava que seria menos caro que no Brasil).
Antes de viajar, fiz uma busca pelas lojas onde eu poderia encontrar o tal sapato. A Tango Moda me pareceu a mais atraente e estava, inclusive, no meu guia Frommer's de BsAs (2010), marcada com três estrelinhas (classificação máxima do guia). O endereço que eu tinha dela era Av. de Mayo, 1370 e no guia estava escrito que fechava às 21h.
Chegamos à porta do prédio às 20h30. Estava a maior chuva e, por isso, pedi que a Soledad esperasse no carro. E o taxímetro rodando.

Entrei no prédio e perguntei ao recepcionista em que andar era a Tango Moda. A resposta? "A Tango Moda não existe mais já faz um ano!". Ai, que burra! Se eu tivesse olhado o site da loja antes, isso não teria acontecido.
Voltei para o taxi correndo, peguei o telefone da loja e liguei perguntando qual era o endereço atual. Me passaram uma localização bem diferente da que estava no guia (Balcarce, 961 - 1 piso 4, em San Telmo) e disseram que não vendiam mais sapatos, somente roupas de tango. 
Comecei a ficar desesperadinha, afinal, eu não havia levado nada apropriado para ir à Milonga naquela noite, pois estava contando com esta compra.

Ainda na porta do prédio, peguei minha lista de lojas e pedi que a Soledad ligasse para uma tal de Flabella, sobre a qual li a respeito em blogs de Tango. Eles disseram que fechariam em cinco minutos, mas a Soledad (meu anjo da guarda naquela noite) pediu que eles nos esperassem.
Fomos até a Suipacha, 263, na Diagonal Norte, e a loja já estava com a porta meio abaixada. Pedi que a Soledad me esperasse mais uma vez enquanto eu comprava meu sapato correndo. 

Na loja, a vendedora muito mal educada, me atendeu com aquele desprezo de como quem diz "você não é tangueira. Você é só uma turista brasileira que paga pau pra nossa dança e quer fazer graça". Só por isso, a cada sapato que eu experimentava, levantava e fazia passos e giros de Tango, pra ver se o sapato era bom mesmo. E o taxímetro rodando.
Perguntei o preço e ela disse que todos os sapatos de prática custavam 420 pesos (os de show são mais caros, óbvio). Pedi a ela que me mostrasse um mais baratinho porque esse preço estava saindo mais caro que no Brasil. Ela disse que não tinha, mas me daria desconto se eu pagasse em dinheiro. Então, a Soledad entrou na loja porque, segundo ela, um sexto sentido avisou que tentariam me enganar. Dito e feito.

Eu tinha, na carteira, exatamente 200 pesos e 30 dólares. Minha intenção era pagar com o cartão de crédito porque eu não queria ficar sem dinheiro ou precisar sacar novamente. Quando dei meu cartão para o dono da loja (que cuidava do caixa), ele disse que a linha telefônica havia caído e que não conseguiria efetuar a compra. Eu disse que, então, não levaria o sapato. Aí começaram as negociações. Ele baixando o preço e forçando a barra para que eu pagasse em dinheiro e eu, tonta, não percebia que ele estava fazendo as contas erradas, para trapacear. Foi aí que a Soledad interviu. 
O cara estava dividindo o dólar por 4, sendo que ele está valendo 5 pesos, mas ela não deixou barato, não. Discutiu com o homem num espanhol tão rápido, que eu não fazia ideia do que eles diziam. Confiei nela e mandei ver. Acabei pagando 350 pesos no sapato (200 pesos + 30 dólares, que equivalem a 150 pesos) e ficando sem absolutamente nada na carteira.


O taxímetro continuava rodando e eu, sem dinheiro algum, pedi à Soledad que parasse em um caixa eletrônico no caminho de volta ao hotel. Aí começou o drama. 
A chuva piorou e começou a cair a maior tempestade. Desci correndo do carro, assim que ela parou no primeiro caixa. Coloquei meu cartão na máquina e... conta inválida. Oi? Ok, entendi. Eu precisava parar em um caixa que fosse da rede Link (já que meu cartão de crédito é Visa). E o taxímetro rodando.

Partimos em direção a outro caixa. Quando a máquina perguntou a quantia que eu queria sacar, digitei um número absurdo, sem querer e, obviamente, eu não tinha crédito o suficiente para isso. Cancelei a operação e comecei de novo. De repente, conta inválida. De novo? Sim. Tentei mais uma vez e... conta inválida. Eu já estava ofegante de nervoso. E o taxímetro rodando.

Fomos a um terceiro caixa. Coloquei o cartão e, adivinha? Conta inválida, claro. Eu não estava entendo porque não conseguia sacar o meu dinheiro e, aquela tempestade somada ao medo de ser assaltada somado ao taxímetro que não parava, me deixou tão tensa, mas tão tensa, que saí do caixa correndo, entrei no carro e pedi para que tentássemos mais uma vez.

O quarto caixa daria certo. Ele tinha a bandeira do meu cartão e eu conseguiria sacar o meu dinheiro se... "¡Soledad! ¿¿¿Donde está mi tarjeta???", gritei. Tirei tudo de dentro da carteira e nada. Tirei tudo de dentro da bolsa e... nada. A Soledad me ajudando, me dizendo para manter a calma e o taxímetro rodando.

Folheei meu guia, olhei papel por papel, nota por nota, revirei os bolsinhos da bolsa e nada. Voltamos, então, ao quarto caixa eletrônico para ver se eu tinha esquecido o cartão dentro da máquina mas, como era de se esperar, ele não estava lá.
Bom, não havia outra opção. Eu precisaria cancelar o cartão. E o taxímetro rodando.

Sou a pessoa mais preocupada do mundo e, graças a isso, tinha anotado os números dos meus cartões em um papel, que guardei na bolsa, bem como os telefones internacionais da Visa e da Mastercard. Tentei ligar para a Visa (1 410 90 28 022), do celular, e a chamada não completava. Acho que, como a ligação é gratuita, só pode ser feita de telefone fixo. A Soledad também tentou pelo celular dela e não conseguiu.
Chamei meu pai no Whatsapp e pedi para que ele ligasse para o banco e cancelasse o cartão pra mim. Ele só precisou dar o número do meu cartão e confirmar alguns documentos. Foi rápido.

Mas e agora? O que eu ia fazer? Super sem graça, pedi à Soledad que me deixasse no hotel e, como eu tinha emprestado 100 pesos para a Ana (já que ela também não tinha conseguido sacar dinheiro, lá no Puerto Madero), quando ela fosse buscá-la no show, a Ana daria todo o dinheiro a ela. O taxímetro já marcava 120 pesos (fora o quanto ia custar buscar a Ana e levá-la ao hotel).

Já no quarto, joguei tudo que estava dentro da minha bolsa em cima da cama e... tchanã! Achei o cartão. Perguntei ao meu pai se dava pra "descancelar", mas a atendente do banco disse que uma vez bloqueado, o cartão fica inutilizável. Ai, que nervoso que eu passei!

Eu tinha mais um cartão Mastercard na carteira que eu não lembrava a senha por nada nesse mundo. Pedi ao meu pai que procurasse a senha que estava anotada em um papelzinho, dentro da gaveta do escritório, embaixo de um livro, dentro de uma pasta etc... Coitado. Depois de muito custo, ele achou a senha e eu fiquei mais tranquila.

Me arrumei para ir à Milonga, mas resolvi esperar a Ana chegar do show (meu plano inicial era me encontrar com ela lá no salão, mas tudo mudou). Só que rolou mais um empasse: liguei para o local onde seria o baile e perguntei quanto era a entrada e se eu poderia pagar com cartão. A resposta foi "25 pesos, sólo en efectivo". Certo, eu precisaria sacar mais 50 pesos pra poder entrar na Milonga.
Fiquei pronta exatamente no minuto em que a Ana chegou com a Soledad, que nos esperava em frente ao hotel. Preciso falar sobre o taxímetro?

Pedimos que ela, pela milésima vez, nos levasse a um caixa eletrônico. Eu tentaria sacar o dinheiro com meu outro cartão. Chegando lá, senha inválida. Digitei duas vezes a senha que meu pai me passou e resolvi não arriscar a terceira para não bloquear meu único cartão restante. Já quase chorando, pedi para a Soledad nos levar de volta ao hotel. Eu tinha umas moedas em dólar e conseguiríamos pagá-la juntando com os 100 pesos que estavam com a Ana.

Só que a Soledad não aceitou. "Não vou deixar que vocês voltem para o hotel! Vocês precisam aproveitar a última noite em Buenos Aires. E você, Luciana, já comprou o sapato... agora precisa dançar com ele!". Insistimos, mas ela não hesitou. "Depois vocês me pagam", disse. Cara, que anjo! Estávamos muito sem graça -- muito mesmo! --, mas aceitamos.

Eu sabia desde o Brasil em que Milonga ir. Era segunda-feira e não haviam muitas opções de baile pela cidade. Eu sabia que a Bendita Milonga, no Buenos Ayres Club, em San Telmo, começava às 21h, com aula de Tango, às 23h começava o show da orquestra El Afronte e, à 1h, começava o baile.

Já era quase meia-noite quando chegamos e o show ainda estava rolando. Calcei meus sapatos novos e entramos. O salão era exatamente como eu imaginava: um palco, uma pista enorme e mesas rodeando a pista. Não havia nenhuma mesa sobrando. E, pelo que percebi, também não haviam turistas (ainda bem!).


O show foi o máximo, mas eu estava ansiosa mesmo para o momento em que começaria o baile. Então, as luzes do palco se apagaram e alguns poucos casais foram para a pista. Fiquei intimidada com aquela cena: muitas mesas e poucas pessoas dançando, ou seja, todos olhavam para os casais.

De repente, um argentino me tirou para dançar. Fiquei tão nervosa que esqueci tudo que eu havia aprendido em mais de quatro anos de curso. Parecia que era minha primeira dança. De fato, era meu primeiro baile -- e, em Buenos Aires, com um argentino! Não consegui lembrar de fazer nenhum adorno espetacular mas, pelo menos, eu não errei. Morri de vergonha (ah, sim, no fundo eu sou bem tímida), mas dancei.


Dancei os quatro tangos de praxe e voltei para o balcão. Não deu 10 minutos, outro argentino me tirou para dançar. Aí eu não aguentava mais. Minhas pernas começaram a doer muito e eu sabia que era por causa dos sapatos novos. Eu sempre fiz aula com sapatos de jazz e nunca havia dançado com um salto tão fino.


Confesso que foi difícil dançar com os argentinos. Acho que é como se um gringo, que teve aulas de samba, viesse dançar gafieira com um carioca. Mas foi uma ótima experiência para mim. De verdade.


Paramos um taxi ali na porta e fomos para o hotel. Ainda tínhamos 50 pesos daquele dinheiro, o que dava pra pagar a volta, né? Também não abusaríamos da Soledad ao ponto de pedir que ela nos buscasse de madrugada.

Estávamos mortas de fome quando chegamos no hotel Milán. O problema era que já passava das 2h da manhã e não havia um único lugar aberto que aceitasse cartão por ali. O restaurante do hotel já não estava mais funcionando e a lanchonete que havia na esquina só aceitava dinheiro. "Vamos dormir que a fome passa", falei pra Ana.
E assim terminou o dia mais tenso de todas as minhas viagens.

Como sobrevivemos sem dinheiro até a volta para o Brasil? Ah, isso a Ana conta amanhã.

Beijos!





Você também poderá gostar de:

1 comentários

Receba o #SinTrip por email



Curta o #SinTrip no Facebook