#SinTrip

Dia 2: Havana (Cuba) - Casa Mirta e jogo de beisebol

segunda-feira, novembro 12, 2012

Depois de nosso passeio com a Míriam, que a Ana contou no último post, voltamos à casa da Zoe e do Vítor para pegar nossas bagagens e partir para a Casa Mirta (Luaces 16), a segunda casa particular que resolvemos experimentar (com dor no coração, porque amamos ficar na primeira).
A Míriam foi até a casa dela para pegar seus documentos e tomar um banho. Ela disse que se a polícia a pegasse sem documento, a coisa ficaria feia -- coisa que só fomos entender mais para o fim da viagem (cenas dos próximos capítulos). Então, pedimos a ela que nos encontrasse mais tarde na Casa Mirta.

Com os queridíssimos Víctor e Zoe
Apesar de estarmos perto da nova casa particular, o Víctor achou que sair caminhando com tanta bagagem não seria uma boa ideia. Ele, então, telefonou para lá e perguntou se alguém poderia nos buscar, "porque estávamos carregando o mundo nas costas". Nos despedimos do casal mais fofo de Havana e, em menos de dez minutos, o Carlos chegou.


Na casa, fomos recebidas pelo Angél. A casa é linda, mas a recepção foi menos calorosa, com jeitão de hostel mesmo, bem diferente da que tivemos na primeira casa. Mas talvez eles achem melhor oferecer mais "liberdade" ou privacidade aos hóspedes. 


Nos deram um quarto com cama de casal, sendo que havíamos pedido o de duas camas na hora da reserva. Mas tudo bem, a gente não se importa com isso. 

Nossa suíte na Casa Mirta
Sem graça de pedirmos água (até agora não sabemos se é legal ou não pedir água nas casas particulares), perguntamos onde poderíamos comprar uma garrafa. Como o Angél foi logo nos indicando uma vendinha que há ali perto, na praça, concluímos que água não é de graça, não. É impressionante, mas é difícil encontrar água em Havana! Nunca tem na primeira venda que você entra. Fomos em duas e não encontramos. Então, saímos caminhando até acharmos algo parecido com uma padaria. Lá, compramos garrafas de dois litros (1,75 CUC) e tomamos sorvete Nestlé (ah, que delícia encontrar Nestlé por todos os lugares de Havana!).

E já que estávamos na rua, decidimos dar umas bandas a pé. Observamos as pessoas pelas ruas, muitas à toa, sentadas em banquinhos de madeira na frente de suas casas, olhamos os edifícios velhos, com jeito de abandonados, mal cuidados, as dezenas de gatos e cachorros magrelos e sarnentos perambulando pra lá e pra cá... A pobreza de Havana começou a aparecer com tudo -- e nem estávamos no centro da cidade.

Calzada de Ayestaran
Um gatinho faminto e carente seguiu os pés da Ana por longos metros
Chegamos à esquina da Avenida Salvador Allende com a Ayestaran e a Infanta. Vimos um grande movimento de carros, ônibus e pessoas, e pensamos em pegar um almendrón para o centro, mas ficamos com medo de nos perder à noite. Já estava quase escurecendo e não tínhamos muito dinheiro no bolso (todo o pouco dinheiro que havíamos trocado no aeroporto já tinha ido embora e tínhamos esquecido de passar em uma cadeca a tempo de trocar mais -- fecha às 15h). Se precisássemos pegar um táxi àquela hora, não conseguiríamos. Além do mais, a Míriam não estava junto para nos ajudar. Resolvemos descer a Ayestaran, pegar a 20 de Mayo e fazer um programa super cubano no Estadio Latinoamericano, em frente à casa da Zoe e do Víctor.

Já sabíamos que estavam rolando as eliminatórias de beisebol para classificar os jogadores para a seleção cubana. Ficamos curiosas. O Víctor nos disse que talvez não custasse nada para entrar, afinal, não haveria um jogo. Ao chegarmos no estádio, vimos uma fila de meninos na bilheteria e perguntamos a um deles quanto era o ingresso.
- Un! -- respondeu.
- Un? Gracias! -- e fomos tirando 1 CUC, cada uma, da carteira.
O menino, então, deu risada e disse:
- Un peso cubano!
Um peso cubano? Melhor ainda! Um peso cubano é igual a 10 centavos de CUC. E chegou a nossa vez de comprar os ingressos. A moça da bilheteria nos ouviu falando português e gritou:
- Extranjeros en la puerta 3!
Opa! Olha a discriminação começando!

Quando chegamos ao portão 3, os ingressos para estrangeiros custavam 3 CUC! Que absurdo, isso é 700 vezes mais caro! Não engolimos, não. Até porque estávamos quase sem dinheiro. Eu disse que era estrangeira mas estava estudando em Havana e não tinha todo esse dinheiro para pagar na entrada. A moça pediu minha carteira de estudante, mas eu falei que havia deixado em casa. Ela, então, fez que não com a cabeça, como quem diz "não posso fazer nada".
Ficamos ao lado da bilheteria, decidindo se compraríamos ou não os ingressos quando um garoto de cabelo rastafári nos abordou, perguntando se queríamos assistir às eliminatórias. Dissemos que sim e ele retornou conosco à bilheteria. Ele pediu para a moça nos deixar entrar pelo mesmo preço que os cubanos estavam pagando e ainda quase pagou nossos ingresso. Não deixamos, claro. Mas entramos no estádio com ele. A moça ficou com dó.


Conversa vai, conversa vem, estávamos tensas por termos mentido. Ele fazia perguntas do tipo "há quanto tempo estão em Cuba?" ou "conhecem tal lugar?" e nós não sabíamos responder. O Richard (este era o nome dele) nos levou a uma área do estádio que também é somente para cubanos e garantiu:
- Daqui temos a melhor visão. Os turistas só podem ficar ali em cima, do outro lado da arquibancada.


Estávamos com medo de sermos descobertas. O policiamento em Cuba é bem reforçado e achávamos que alguém chegaria a qualquer momento para nos tirar daqueles banquinhos de madeira (o que não aconteceu).
O Richard não parava de querer conversar e implorou para combinarmos uma balada para quinta-feira. Dissemos que sim e... Oi! Dá pra deixar a gente ver o jogo? Tadinho. No final, eu que fiquei com dó. Eu sempre tenho dó das pessoas. Hahaha

Com Richard, no Estadio Latinoamericano
Ele sacou que não estávamos estudando coisa nenhuma, mas nem ligou. Até fez questão de nos explicar sobre as eliminatórias e ainda se ofereceu para nos guiar por Havana.
Ficamos pouco tempo no estádio (estávamos, de fato, incomodadas por termos mentido) e dissemos ao Richard que precisávamos encontrar uma amiga, para sairmos de fininho. Ele nos acompanhou até a porta, nos deu seu telefone e disse que, se precisássemos de qualquer coisa, poderíamos contar com ele. Ah, o apego cubano!
No Estadio Latinoamericano, assistindo às eliminatórias de beisebol
Saímos de lá varadas de fome e obviamente não haviam muitas opções de comida por ali. Uma lanchonete ao lado do estádio, chamada El Rápido (uma grande rede que você encontrará pelas cidades cubanas), servia uns sanduíches meio estranhos (sempre de presunto e queijo, sempre) e pizzas. Não queríamos comer pizza de novo e fomos até o restaurante do próprio estádio. Os pratos? Pizza de queijo, pizza de presunto, chuleta de porco e arroz e feijão.

O típico prato (ruim) de arroz, feijão e vagem. Mal sabia eu que encontraria este prato tantas vezes pela frente! :(
A Ana pediu uma chuleta, que custou 3 CUC, mas eu, que detesto porco, pedi só o arroz com feijão. A garçonete, Dolores, ofereceu um frango frito que custaria 6 CUC (que ela buscaria no El Rápido) e eu nem tinha esse dinheiro, então fiquei só no acompanhamento mesmo, que me saiu 1 CUC. É claro que estava ruim, mas só precisávamos forrar nossos estômagos para não desmaiar. Então valeu.


Perguntamos à Dolores se era seguro voltarmos a pé para a Casa Mirta, já que estava de noite e as ruas de Havana não são nem um pouco iluminadas. Ela disse que sim, porque temos cara de turistas e estávamos de bolsa, brincos, colares etc. Perguntamos, então, se havia algum almendrón que nos levasse até a Salvador Allende, porque não tínhamos dinheiro para pegar um táxi. Ela garantiu que era só irmos até a próxima esquina.
Contamos nossas moedas e percebemos que não tínhamos o suficiente nem para duas passagens de almendrón (10 pesos cubanos cada). A Dolores, então, fofa, nos deu os 4 pesos cubanos que nos faltavam.

Passamos na casa da Zoe e do Víctor para saber se a Míriam havia nos procurado e aproveitamos para confirmar com o Víctor se havia mesmo um almendrón que passasse por ali. Ele disse que não, mas que poderíamos voltar a pé tranquilas, pois não tinha perigo nenhum. Ah, a consistência cubana...
Fechamos os olhos, pedimos a Deus que nos protegesse e apertamos o passo. Realmente, a caminhada de aproximadamente 20 minutos foi bem tranquila.

Chegamos à Casa Mirta e perguntamos se o Angél poderia trocar 5 euros para tomarmos o táxi na manhã seguinte, com destino ao terminal Viazul. Ele trocou, mas fez 1 pra 1. Tomamos um prejuizinho, mas não tínhamos o que fazer mesmo. Os 18 CUC para pagarmos a hospedagem já estavam reservados, na mala. Só cancelamos o café da manhã que tomaríamos porque ele nos custaria mais 8 CUC que não tínhamos, claro. A sorte é que eu tinha um Pingo D'Oro na mochila para não morrermos de fome até Varadero.

Enfim, fomos dormir, exaustas e pobrinhas.

Beijos,





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