Cuba

Cuba: o dilema do dinheiro - Parte 2

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Quando escrevi a primeira parte deste texto, tinha apenas uma ideia sobre o que encontraria em Cuba e sobre como usaria meu dinheiro por lá. Bom, está claro para mim hoje que, primeiro você deve viajar para o seu destino antes de fazer especulações -- aprendi a lição -- e também comprovei que a quantidade de informações práticas e úteis que temos à disposição sobre Cuba é muito pouca. Quando fomos para o Líbano vivemos algo bastante parecido e só descobrimos como as coisas são, de fato, indo para lá.

Começo dizendo que viajar para Cuba não é tão caro assim. Na verdade, voar para lá é caro devido à pouca procura, o que pode acontecer com qualquer destino em qualquer lugar do mundo. Faça uma cotação para a Islândia para você ver o preço. Ao pensarmos em países da América Central, é natural imaginar que a passagem será mais barata, mas não é a realidade. Em relação à hospedagem há diversas opções com valores variados, desde as casas particulares até os grandes resorts nas praias de Varadero e pelos Cayos, que serão naturalmente mais caros, como em qualquer paraíso tropical. Não saímos da nossa média de gastos com hospedagem, mas tivemos um downgrade considerável em relação à qualidade, o que é muito relativo em Cuba. 

Na ilha de Fidel descobrimos também que o turista não tem uma moeda própria ou obrigatória para uso. Pois é, como já falamos aqui várias vezes, o Peso Conversível (CUC$) é uma moeda criada pelo governo para combater a desvalorização do peso em relação às moedas estrangeiras. Bom, o problema é que o CUC$ não é usado em nenhuma transação comercial do mercado devido ao bloqueio dos Estados Unidos, portanto, nenhum banco central no mundo reconhece as moedas cubanas. O que isso significa? Que o turista fica à mercê do câmbio estabelecido pelas Cadecas, casas de câmbio cubanas que ditam  diariamente o valor da troca -- geralmente com base na cotação do Euro. Na prática vimos que é lenda o cubano não poder utilizar CUC$ ou o turista não poder comprar com a Moeda Nacional (MN$), usada pelos locais a maior parte do tempo. Sim, eles podem usar o CUC$ e até mesmo a entrada de algumas baladas são em CUC$ e elas estão lotadas de cubanos. O problema é que uma porcentagem muito pequena da população tem acesso a ele devido ao seu valor.

Nos bairros mais afastados de La Habana Vieja é mais comum usar o peso nacional e você vai ver como a diferença de preço é gritante. Se você não tiver MN$, não se preocupe. Faça as contas, pague em CUC$, mas esteja ciente de que receberá o troco em MN$. Onde estão as diferenças então? Basicamente no preço das coisas e no bom humor do cubano que poderá te cobrar mais ou menos por ser gringo. E é aí é onde nascem as lendas. Veja: tudo tem um preço razoavelmente padrão em uma cidade turística, como o artesanato, a água, o cigarro e o táxi. Acontece que alguns serviços em Cuba são utilizados quase que exclusivamente por cubanos, como os almendrónes, aqueles carros antigos pelos quais se paga MN$ 10 a corrida. Aqui contamos da noite que estávamos com a Míriam em um carro desses e ela nos proibiu de conversar, pois o motorista poderia nos cobrar mais devido ao horário. Vivemos algo parecido também quando pegamos um cocotáxi, mas o que o motorista não esperava era que fôssemos malandras e soubéssemos negociar.


Outro exemplo clássico é o da sorveteria Coppelia. É comum as pessoas voltarem dizendo que é um "absurdo" a fila que os cubanos têm que enfrentar para tomar "um mísero sorvete". O que eles não querem é pagar caro por ele, isso sim. Se eu soubesse a diferença entre os valores do mesmo sorvete em CUC$ e em MN$, certamente teria ficado na fila, porque paguei CUC$ 3,20 no trailer e lá dentro era MN$ 3, ou seja, CUC$ 0,12. :( A verdade é que quando viajamos podemos passar por isso em qualquer lugar. Aposto que você já viu algum artesão na Bahia cobrar de um gringo um preço absurdo por um berimbau, não? ;)

 Sorveteria que divide opiniões sobre o uso do dinheiro pelos turistas
Não posso deixar de comentar que os cubanos não perderão uma oportunidade para pedir dinheiro por fotos, mesmo que eles estejam na rua, sentados no meio da praça, fantasiados de qualquer coisa. Só que os artistas na Hollywood Boulevard, em Los Angeles, ou em Montmartre, em Paris, também não. A saída é pagar uma graninha ou tirar a foto escondido, mas sempre há o risco de escutar umas palavras pouco gentis. hahahaha


Algumas vezes é provável que você se sinta mal por não dar dinheiro, porque eles são deveras insistentes, mas você não é obrigado a dar dinheiro para ninguém. Fique com a consciência tranquila, porque não é seu papel alimentar o mundo todo e isso a gente só aprende na prática, infelizmente.

Quem pediu para tirar a foto, neste caso, foram eles ;)
Quer ajudar os cubanos? Leve um sabonete, um pacote de balas ou um chaveirinho do Brasil. Deixe um sabonete para a sua camareira ou algumas moedas de CUC$. Isso é passe livre para mais toalhas ou um rolo de papel higiênico extra. ;) Dê para quem você quiser e não fique triste se acabar. Muitos, vários, centenas de cubanos passarão por você e pedirão regalitos, caramelos, jabón ou bolígrafos (canetas). E por que não pagar um lanche e um refresco para um menino que te acompanha na rua? É barato e faz bem.

Meninos para quem pagamos alguns lanches. Detalhe: eles não pediram nada.
Nos surpreendemos quando descobrimos que poderíamos usar o cartão de crédito em alguns lugares. Em locais mais turísticos e populares como o La Bodeguita del Medio e o La Floridita, você pode pagar com o cartão de crédito ou débito. 

Se esbalde nos mojitos e pague com cartão de crédito no La Bodeguita del Medio
Outra vantagem de uso do seu cartão é poder sacar dinheiro nos caixas eletrônicos do Banco Nacional de Cuba ou em algumas Cadecas. As taxas debitadas são as mesmas, de IOF e câmbio do dólar. Dê preferência para estes dois, porque nos hotéis e casas particulares eles costumam cobrar muito caro pelo CUC$. 

Caixa eletrônico de uma Cadeca, na Calle Obispo
Escutamos algumas vezes antes de viajar que os caixas eletrônicos engoliam os cartões. Bom, não sabemos se isso é verdade, porque não tivemos problemas e não precisamos sacar dinheiro à noite -- período mais comum para os problemas relatados --, então, garanta seus trocados durante o dia para não ter dor de cabeça.

Ir à Cuba foi ótimo para derrubar várias ideias pré-concebidas sobre a relação de um povo com o seu dinheiro, bem como a relação deles com o dinheiro do turista. No fim das contas, acabamos sendo gringos em todos os lugares fora do Brasil. A diferença está em quão interessados estaremos em entender como, de fato, os sistemas funcionam e como podemos não tirar proveito deles, mas sim, nos adaptar a eles para vivermos uma experiência mais rica!

Espero que este post tenha ajudado você! :)

Até mais!

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