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Santiago de Compostela: por que peregrinamos?

terça-feira, janeiro 27, 2015

Desde o mundo antigo, as peregrinações consistiam em jornadas realizadas individualmente ou em grupo para um determinado lugar considerado sagrado, uma cidade ou um templo marcado por um acontecimento especial ou pela passagem de um herói ou de um Santo. Este fenômeno ocorre em praticamente todas as religiões e culturas, desde os tempos mais remotos. A prática das peregrinações se mantém mais atual que nunca, entre todas as religiões, como os muçulmanos que, anualmente, se dirigem à Meca.


As peregrinações cristãs


As peregrinações cristãs têm sua fonte de inspiração no Antigo Testamento, na história de Abraão e nas andanças do povo de Israel, retratadas, por exemplo, no Êxodo. O antigo povo israelita fazia três peregrinações solenes ao ano (em Páscoa, Pentecostes e na festa dos Tabernáculos), formando caravanas jubilosas a cantar os salmos ascensionais, dirigiam-se ao Templo de Javé em Jerusalém.

“Aliás, não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura” (Heb 13,14)

A vida de Maria também está marcada pelas peregrinações. A primeira de que temos notícia é a que empreende para atender a sua prima Isabel, que, como Ela, está grávida. "Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá; Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel" (Lc 1,39-40). A portadora da Palavra "se levanta" e se põe a caminho "com prontidão", ao noroeste de Jerusalém, à cidade de Ain Carim para oferecer seu serviço apostólico. Depois, Maria peregrina a Belém, onde dá à luz seu filho Jesus. Mais tarde, o Evangelho de São Lucas nos conta que "seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando tinha doze anos, subiram eles como de costume à festa" (Lc 2,41-42). Ano após ano, Maria peregrinou a Jerusalém, a Cidade Santa, onde teriam lugar os mistérios centrais de nossa fé. Maria, ano após ano, levou seu Filho educando-o no sentido da peregrinação e deixando-se educar por Ele, como vemos no episódio da perda e o achado do Jesus no Templo.

Cristo peregrinava com os apóstolos para pregar o Evangelho e, depois de ser crucificado, seus discípulos não hesitaram em continuar a tradição de peregrinar. 

A Igreja manteve a tradição de visitar os lugares percorridos por Cristo, consagrados pela sua morte, costume que se perpetuou com as Cruzadas, que tinham como objetivo defender locais e objetos abençoados pela presença de Cristo. Desde o início da história da Igreja, os lugares santos passaram a ser fervorosamente visitados pelos fiéis (como o cenário da vida, da morte e da glorificação de Cristo, na Palestina; os túmulos dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, em Roma; etc.). 


Na Idade Média, os peregrinos eram considerados heróis que enfrentavam diversos perigos, doenças e até a morte a fim de conquistar a salvação. 

"Assim os peregrinos geralmente não se punham a caminho sem ter recebido da Igreja uma espécie de investidura semelhante à do cavaleiro medieval: toda a paróquia se reunia em torno deles para participar da Missa solene; nessa ocasião o celebrante dava bênção especial tanto aos futuros viandantes como ao seu vestiário característico, vestiário que constava de uma túnica longa até os joelhos ou até os calcanhares, um cinturão de couro e, por vezes, um vasto manto com capuz (donde o nome francês de pèlerine dado a tal capa); a fim de se caracterizar bem, os peregrinos traziam uma cruz de pano vermelho fixa às costas quando se dirigiam ao respectivo santuário, presa ao peito quando regressavam; o cajado era alto, por vezes oco, podendo assim servir de instrumento musical para animar os passos dos viandantes.

Cada bispo costumava entregar aos seus diocesanos peregrinos uma carta de recomendação, mediante a qual facilmente encontrariam acolhida nos mosteiros e em casas particulares (isto não impedia que os peregrinos muitas vezes dormissem ao relento, dada a escassez de população de várias regiões).

Em vista dos múltiplos perigos latentes nas estradas medievais, não era costume viajar a sós; ao contrário, os peregrinos reuniam-se em caravana, o que lhes possibilitava conversar e cantar piedosamente, reconfortando-se assim da caminhada. Não raras eram as macerações voluntárias a que eles se submetiam: uso de cilício e correntes, caminhar descalço, alimentação restrita, etc.

[...] O ideal piedoso do peregrino medieval se foi transmitindo de geração a geração, de sorte que ainda hoje entre os católicos se observa o costume de peregrinar... Os lugares santos se têm multiplicado através dos séculos, todos assinalados por fenômenos que, após criteriosa análise por parte das autoridades eclesiásticas, podem ser tidos como indícios de autênticas intervenções do Senhor Deus ou de algum Santo (da Virgem SSma., em particular). — Aqui parece oportuno lembrar que a Santa Igreja, embora permita a devoção a certos santuários, nunca definiu nem definirá como objeto de fé aparições e comunicações sobrenaturais verificadas após a morte do último dos Apóstolos (S. João Evangelista, falecido por volta do ano 100) ; cf. «P. R » 19/1959, qu. 4." (Dom Estêvão Bettencourt)

São Tiago


Tiago, o Maior, nasceu na Galileia e era filho de Zebedeu e Salomé, segundo as Sagradas Escrituras. Era, portanto, irmão de João Evangelista, os "Filhos do Trovão", como os chamara Jesus. É sempre citado como um dos três primeiros apóstolos, além de figurar entre os prediletos de Jesus, juntamente com Pedro e André. É chamado de "maior" por causa do apóstolo homônimo, Tiago, filho de Alfeu, conhecido como "menor", por ser mais novo.

Nas várias passagens bíblicas, podemos perceber que Jesus possuía apóstolos escolhidos para testemunharem acontecimentos especiais na vida do Redentor. Um era Tiago, o Maior, que constatamos ao seu lado na cura da sogra de Pedro, na ressurreição da filha de Jairo, na transfiguração do Senhor e na sua agonia no horto das Oliveiras.

São Tiago na Espanha


Consta que, depois da ressurreição de Cristo, Tiago rumou para a Espanha, percorrendo-a de norte a sul, fazendo sua evangelização, sendo por isso declarado seu padroeiro. Na cidade de Saragoça, Tiago presenciou uma aparição de Maria, mãe de Jesus, que ainda vivia. Tal aparição, em cima de um pilar, originou o culto de Nossa Senhora do Pilar. Algum tempo depois, Tiago voltou a Judeia, onde converteu centenas de pessoas, até mesmo dois mágicos que causavam confusão entre o povo com suas artes diabólicas. Até que um dia lhe prepararam uma cilada, fazendo explodir um motim como se fosse ele o culpado. Assim, foi preso e acusado de causar sublevação entre o povo. A pena para esse crime era a morte.

O juiz foi o cruel rei Herodes Antipas, um terrível e incansável perseguidor dos cristãos. Ele lhe impôs logo a pena máxima, ordenando que fosse flagelado e depois decapitado. A sentença foi executada durante as festas pascais no ano 42. Assim, Tiago, o Maior, tornou-se o primeiro dos apóstolos a derramar seu sangue pela fé em Jesus Cristo.

No século VIII, quando a Palestina caiu em poder dos muçulmanos, um grupo de espanhóis trouxe o esquife onde repousavam os restos de São Tiago, o Maior, à cidade espanhola de Iria. Segundo uma antiga tradição da cidade, no século IX o bispo de lá teria visto uma grande estrela iluminando um campo, onde foi encontrado o túmulo contendo o esquife do apóstolo padroeiro. E a Espanha, que nesta ocasião lutava contra a invasão dos bárbaros muçulmanos, conseguiu vencê-los e expulsá-los com a sua ajuda invisível.

Santiago de Compostela


Mais tarde, naquele local, o rei Afonso II mandou construir uma igreja e um mosteiro, dedicados a São Tiago, o Maior. Com isso, a cidade de Iria passou a chamar-se Santiago de Compostela, ou seja, do campo da estrela. Desde aquele tempo até hoje, o santuário de Santiago de Compostela é um dos mais procurados pelos peregrinos do mundo inteiro, que fazem o trajeto a pé.

Essa rota, conhecida como o Caminho de Santiago de Compostela, foi feita também pelo papa João Paulo II em 1989. Acompanhado por 600 mil jovens do mundo inteiro, na Jornada Mundial da Juventude, foi venerar as relíquias do apóstolo São Tiago, o Maior, depositadas na magnífica catedral das seis naves, concluída em 1122.

Catedral de Santiago de Compostela

Peregrinar não é simplesmente caminhar na direção de um determinado lugar, mas fazê-lo movido por algo muito importante, determinante para a vida do peregrino. Isto sim caracteriza a peregrinação. Alguns realizam este ato buscando o próprio sentido de sua existência, como uma viagem interior, o que ocorre muito com os que seguem o Caminho de Santiago.

A verdadeira peregrinação nasce de um convite divino plantado em nossa alma, e brota dela através de um desejo. O peregrino se habilita a receber a indulgência plenária, ou seja, a remissão de seus pecados. A palavra pecado vem de pecus, que significa pé defeituoso, pé incapaz de percorrer um caminho. A maneira de corrigir o pecado é andar sempre em frente, adaptando-se às novas situações e recebendo em troca todas as bençãos que Cristo dá com generosidade aos que lhe pedem.

indulgência deriva de indulgente, que significa alguém que perdoa. A Igreja oferece o dom das indulgências para aqueles que sentem necessidade de conversão e de arrependimento de seus pecados. Com a indulgência, o cristão recebe, então, a purificação das penas que estão a atormentar sua alma, mesmo depois de haver cumprido o rito da Confissão.

Cartaz na catequese da JMJ
Finalizo este post com uma música para inspirar os peregrinos católicos como eu:


Beijos,


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