Dia 12: Madri (Espanha) - Trem eterno, casa do Bart e saidinha

Na terça-feira, dia 9 de junho, acordamos bem cedo em A Coruña e pegamos o ônibus para a estação de trem. Como contei no post anterior, comprar as passagens de volta para Madri foi uma novela, mas acabamos conseguindo pelo site da Renfe. Chegando na estação, mostramos o número do localizador da reserva ao atendente e emitimos nossos bilhetes.


Compramos as mais baratas e, por isso, o trem que pegamos não era dos mais modernos. Na verdade, era terrível: lento, com mil paradas, desconfortável... Foi uma longa e chatérrima viagem de oito horas. 


Quando, finalmente, chegamos em Madri, às 16h, tomamos o metrô rumo ao bairro Las Ventas, onde reservamos um quarto na casa do Bart, pelo Airbnb. O apartamento é enorme e tem vários quartos "escondidos" -- que estavam ocupados por vários outros turistas. Além disso, o Bart é super gentil e hospitaleiro.

Las Ventas é um bairro ligeiramente distante do centro e da badalação, mas sabíamos que era um bairro bacana (por indicação de amigos) e que poderíamos ir a pé ao show do Pablo Alborán, que seria na quinta-feira.

Devidamente instaladas, eu tomei um banho correndo e fui até a casa do meu amigo, na Calle Serrano, buscar nossas malas, enquanto a Cintia tomava o banho dela. Lembra que contei que, antes de partir só com nossas mochilas para o Caminho de Santiago, deixamos nossas bagagens na casa dele? Falei sobre isso aqui

Tomei um táxi, fui e voltei rapidinho. Nos arrumamos -- oh, glória! -- e matamos a saudade que estávamos de ficar limpas e maquiadas (e bota maquiadas nisso! Hahaha). 


Ficamos tão empolgadas em nos arrumar, que logo saímos para romper la noche (só que não).


Estávamos combinando de encontrar o Diego (aquele nosso amigo do Caminho de Santiago), mas acabamos não conseguindo. Ele tinha um jantar com os amigos dele e nós fomos para o centro. Começou a chover e estávamos mortas de fome, sem a mínima vontade de comer tapas. Entramos no KFC da Puerta del Sol e matamos nossas lombrigas. 


Ficamos ali durante um tempo, aproveitando o Wi-Fi e esperando a chuva diminuir, até que chegou uma promoter do Clubbers Tour Madrid perguntando se já tínhamos aonde ir. Eu já sabia que esses promoters enchiam o saco para entrarmos nas baladas porque, em minha primeira noite em Madri, eu e o Francisco dispensamos vários deles. Mas, como eu e a Cintia não tínhamos mesmo nada para fazer, topamos conhecer a baladinha da promoter. Era o Clubbers Shot Point. Uma merda.  


Não ficamos nem dez minutos na balada, que parecia mais um inferninho da Rua Augusta tocando reggaeton, tomamos o drink que ganhamos e fomos embora. Passeando pela Puerta del Sol, vimos um cassino. E entramos. 


Estava tudo tão divertido, mas ao contrário, que achamos melhor voltar para Las Ventas logo. Caminhando da estação do metrô até a casa do Bart, nos deparamos com um bar chamado Taberna La Tienta (que eu falei errado no vídeo porque não consegui ler) e decidimos parar para tomar uma cervejinha, já que parecia mais animado que qualquer outro lugar que tínhamos ido. 


A Taberna La Tienta é um bar muito local, que não tem turista nunca (foi o que nos disseram) e é ponto de encontro entre toureiros, apostadores e dançarinas de Flamenco. Que máximo! A decoração é toda típica e há cabeças de touro para leilão por todos os lados. Acabamos batendo papo com um toureiro e um fazendeiro que estavam tomando um vinho e ficamos amiguinhas do garçom. O que não sabíamos era que este bar viraria o nosso point enquanto estivéssemos hospedadas no bairro Las Ventas.

Ficamos uns quarenta minutos por lá e voltamos para a casa do Bart. A vontade de diversão era grande, mas estávamos muito cansadas da péssima viagem de trem que fizemos e já era tarde. Decidimos dormir. No dia seguinte, passearíamos bastante.

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Até a próxima!
Beijos,


Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca

Como contei no último post, não conseguimos passagem de Santiago de Compostela para Madri. Então, aproveitei que estávamos na estação de trem, liguei para a minha amiga Dani, que mora em A Coruña, e perguntei se poderíamos passar a noite na casa dela até conseguirmos voltar para a capital espanhola, no dia seguinte.

A Coruña é a capital da província de mesmo nome, que faz parte da comunidade autônoma da Galícia. É uma cidade grande, de 250.000 habitantes, e historicamente muito importante para a Espanha, principalmente por causa de seu porto, de onde saíram grandes expedições.

A Coruña fica a apenas meia hora de trem de Santiago de Compostela e, já que estávamos tão perto, por que não aproveitar para conhecer a cidade e visitar minha amiga? A passagem custou 7 euros e o trem para este destino sai de meia em meia hora.


Quando chegamos à estação de trem da cidade, a Dani explicou que ônibus deveríamos tomar e onde precisávamos descer. Foi super fácil.


A passagem de ônibus custou 1,30 euros e a viagem demorou uns 20 minutos. Quando chegamos ao nosso destino, descemos e fomos procurar a casa da Dani. A numeração das ruas é igual à das ruas de Madri (um lado é crescente e o outro, decrescente) -- não nos acostumamos a isso tão fácil.

Subimos ao apartamento da Dani e fomos super bem recebidas por ela e seus gatinhos. Ficamos batendo papo até que decidimos sair para tomar uma cervejinha. Fomos caminhando pelo Centro, nos encontramos com a Ángela e passamos pela Plaza María Pita, o principal ponto da cidade.


Nesta praça fica o edifício do concello (a prefeitura) e o monumento em homenagem à María Pita, figura muito conhecida na História Espanhola por seu grande feito em 1583. Na época, A Coruña estava cercada pelos ingleses e María Pita conseguiu derrotar o soldado que carregava a bandeira da Inglaterra. Ela, com a bandeira em mãos, motivou a população, que já estava super entregue ao domínio inglês, a lutar pela Coruña e vencer as tropas inglesas.

Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca
Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca

Fomos ao bar/restaurante La Montanera (Calle de La Fama, 1), ali no Centro mesmo, para tomar uma cervejinha e acabamos tomando duas, três... 


Afinal, uma caña em A Coruña não significa bem um copinho. Aquilo é praticamente um balde de cerveja!

Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca

Então, decidimos passar no supermercado para comprar os ingredientes do nosso jantar.

Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca

Mas, antes de voltarmos pra casa, como eu não poderia passar por uma cidade de praia sem molhar os pés no mar, fiz a Dani nos levar até a areia só pra cumprir a tradição.


Apesar da areia dura, a praia é maravilhosa. E aquele pôr-do-sol das 22h estava lindo de morrer. <3

Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca
Dia 11: A Coruña (Espanha) - Livin' La Vida Loca

Fomos, então para a casa da Dani, que preparou uma fideuá (uma variação de paella, típica do povo catalão/valenciano), para nós.


Comemos, bebemos, conversamos e rimos até às 3h da manhã. Nesse meio tempo, conseguimos comprar nossas passagens de trem de A Coruña para Madri pelo site da Renfe. Pagamos 40 euros cada uma para voltarmos à capital espanhola no dia seguinte, às 8h da manhã. Aproveitamos e reservamos nossa hospedagem na casa do Bart, pelo Airbnb. Aliás, falando em Airbnb, a Dani e a Ángela também oferecem o apartamento delas para turistas. Quem quiser se hospedar com essas queridas em A Coruña, podem fazer a reserva por aqui. O apartamento é lindo e a localização é ótima!

Nosso dia de "vida loca" foi demais! Pena que não deu para aproveitar mais A Coruña com nossas amigas, mas precisávamos mesmo voltar para Madri.

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Beijos,

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Na segunda-feira, dia 8 de junho, acordamos cedo porque queríamos fazer um tour pela cidade de Santiago de Compostela antes da Missa dos Peregrinos, que começava ao meio-dia.

Como contei no post anterior, dormimos no hotel A Tafona do Peregrino, que foi caro, mas é delicioso. 


Depois do café da manhã, fizemos o check-out, deixamos nossas mochilas no guarda-volumes do hotel, e saímos para passear. Queríamos comprar alguns regalitos e passamos em algumas lojas do centro. Todas têm praticamente as mesmas lembrancinhas com praticamente o mesmo preço (varia no máximo 1 ou 2 euros). Compramos medalhinhas de São Tiago e alguns souvenirs religiosos. 

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Então fomos visitar a Catedral de Santiago de Compostela, que ainda não conhecíamos por dentro -- porque, no dia anterior, ficamos apenas admirando a igreja pelo lado de fora. 


A Catedral é maravilhosa, como você pôde ver no vídeo, e há algumas tradições que, se você é católico, precisa seguir. Uma delas é abraçar a imagem do Apóstolo, que fica no meio do altar (para subir ali, é preciso ir por trás do altar).

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Outra tradição, é claro, é descer à tumba de São Tiago. Isso é emoção pura! Deixei ali todas as orações pelas quais eu fiz o Caminho de Santiago. Rezei e chorei, óbvio. :P

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Já eram umas 11h quando nos demos conta de que estávamos sem nossas credenciais de peregrinos -- e queríamos ficar nos lugares reservados para nós. Então fomos correndo até o hotel, pegamos as credenciais e voltamos para a Catedral. Sentamo-nos ali na frente e ninguém pediu pra ver nossas credenciais. Duh! Hahaha.

Pouco antes da Missa dos Peregrinos começar, uma irmã ensaiou o Salmo conosco. E foi lindo. Ao meio-dia, os padres entraram... (Só gravei o começo e o fim da Missa, porque eu queria prestar a atenção). E, na hora da bênção final, foi aquela choradeira!


Quando acabou a Missa e saímos da Catedral, começamos a encontrar vários peregrinos que conhecemos pelo Caminho. O casal alemão, que nos aconselhou a ficar em Melide...

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Os franceses Into The Wild, que de Santiago de Compostela ainda iam para Fisterra e, depois, para Portugal (!)...

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

E mais um monte de gente com quem trocamos uns "aeee! Conseguimos!"

Uma amiga local do Diego sugeriu que ele comesse "o melhor bocadillo de Santiago de Compostela" em um bar super tradicional chamado O Filandón (Rúa de Acibechería, 6), e lá fomos nós.


E o bocadillo realmente era uma delícia. E gigante! Deu pra guardar metade pra levar. Depois do almoço, voltamos para a Catedral, para nos despedir dessa maravilha.


Demos mais um passeio pelo centro...

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

E aí começou o drama meu e da Cintia: como íamos embora de Santiago de Compostela? Hahaha. Estávamos muito loucas nessa viagem, sem reservar nada, sem comprar nenhuma passagem... Três dias antes, eu tinha visto passagem de avião de Santiago a Madri por apenas R$ 120. Fui acessar o aplicativo do Skyscanner e, pof!, desmaiei: a passagem estava R$ 450. Demos uma olhada no Blablacar e até havia um cara que ia de Santiago a Madri naquele dia mesmo, às 16h30, mas eu não sei porque, não consegui fazer a reserva pelo celular. No aplicativo da Renfe (a companhia de trem) também não havia nenhuma passagem disponível. Mas, como o Diego ia embora para Madri de trem, às 16h, decidimos arriscar e ir com ele até a estação para ver se conseguíamos alguma passagem. 

Dia 11: Santiago de Compostela (Espanha) - Missa dos Peregrinos, tour e despedida

Chegando na estação, corri para o guichê para saber se havia algum lugar disponível em qualquer trem para Madri. "Só amanhã. Hoje estão todos cheios", me responderam. Pensamos em pegar um trem para alguma cidade mais vazia como Ponferrada e, de lá, pegar outro trem para Madri. Mas os vendedores disseram que mesmo assim não havia mais passagem para aquele dia. 

Nem avião, nem carro, nem trem. E agora?

Enquanto eu pensava em uma alternativa, o Diego partiu. Nos despedimos com abraços demorados, lagriminhas e com a promessa de nos vermos em breve.

Então eu tive uma ideia! Liguei para a Dani, uma amiga que mora em A Coruña, uma cidade de praia pertinho de Santiago de Compostela, e perguntei se poderíamos passar a noite na casa dela para pegarmos o trem do dia seguinte para Madri. "É claaaaaaaaaaaaaro que sim! Venham! Estou esperando vocês!", ela disse. 

O trem saía em dez minutos e custava apenas 7 euros. Não pensamos duas vezes.


Em meia hora já estaríamos em A Coruña. Mas isso é história para outro post.

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Beijos,


Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar

Quando terminamos a última etapa do Caminho de Santiago que, para nós, foi de Salceda a Santiago de Compostela (29,9 Km), ficamos sentadas em frente à Catedral por mais de uma hora, chorando e rezando, rezando e chorando, como contei no último post.

Passada a emoção (não toda, claro), eu e a Cintia precisávamos pegar nossas compostelas, que são os certificados de conclusão do Caminho de Santiago. O Diego já tinha retirado a dele -- e ficado horas na fila. Como já era tarde, presumimos que não teria tanta gente assim terminando o Caminho e fomos, então, para a Acolhida de Peregrinos.

Na fila, encontramos um dos peregrinos que conhecemos pelo caminho, o Alvaro Lazaga, um vlogger famoso por fazer o Camino Benidorm. Essa rota tem 1.331 Km (!) e começa na costa mediterrânea, na cidade de Benidorm, em Alicante, na Espanha. Trocamos alguns presentinhos e tiramos fotos para recordação. :D

Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar

Esperamos uns 20 minutos na fila, até que nos chamaram. Mostramos os nossos passaportes de peregrinas, com todos os carimbos (selos) que provam a distância percorrida, e pegamos a compostela em latim que é comum a todos os peregrinos. Mas, há uma outra compostela, com certificado de distância, que é dada somente a quem faz o Caminho de Santiago por motivos religiosos, que foi o nosso caso.

Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar

Pagamos 2 euros pela primeira compostela e mais 3 euros pela compostela religiosa. Na verdade, esses valores são doações para a Catedral -- fica a seu critério dar ou não (e se quiser dar mais também). Mas atenção: as compostelas só são entregues aos peregrinos que percorrem, no mínimo, 150 Km a pé ou 200 Km de bicicleta. E, veja, como existem etapas pré-definidas, se você começa o Caminho em uma cidade entre duas etapas, ela não é contabilizada. Nós começamos em Pedrafita do Cebreiro, portanto, percorremos 160 Km -- e não 155 Km, como está na minha compostela. Acontece que Pedrafita não é ponto inicial, então eles contam a partir de O Cebreiro.

Com as compostelas em mãos, voltamos para a frente da Catedral, onde o Diego nos esperava com nossas mochilas.


Agora que já estávamos felizes da vida e tínhamos parado de chorar, ficamos ali nos divertindo -- eu e o Diego até dançamos salsa! E tiramos fotos creiças, com a bandeira do Brasil e essas cafonices que fazemos quando viajamos.

Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar
Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar
Dia 10: Santiago de Compostela (Espanha) - Compostela, hotel, briga, paz e jantar

Então nos demos conta de que não tínhamos onde dormir e precisávamos procurar uma hospedagem urgente. Saímos caminhando pelo centro, em busca de um albergue ou de uma pensão -- como se não estivéssemos nada cansadas depois dos 30 Km da etapa do dia. E começou o drama: estava tudo lotado e todos os lugares eram caríssimos.


Andamos, andamos, andamos até chegarmos ao hotel A Tafona do Peregrino (Rúa da Virxe da Cerca, 7), que tinha dois quartos vagos. Perfeito para nós se não fosse o preço -- cada quarto custava 90 euros.

Aí começou a discussão. Eu não queria gastar tudo aquilo, não estava nos meus planos, e eu tinha mais 20 dias de viagem pela frente, incluindo Paris, a cidade mais cara do mundo. A Cintia começou a dizer que ela pagaria, mas eu não queria ficar devendo nada pra ninguém. Começamos a brigar. Falei que luxo e conforto não eram o sentido da viagem e ela dizendo que não se importava porque estava muito cansada e queria um lugar decente para ficar. Gritamos feito duas loucas e quase saímos na mão. Nisso, o Diego tentando nos acalmar e o recepcionista mandando-nos falar baixo para não incomodar os outros hóspedes. Enquanto trocávamos berros e insultos, o Diego pagou pelos dois quartos sem nem percebermos. 

Ele me mandou entrar para me acalmar e eu fui. Cinco minutos depois, a Cintia entrou no quarto para que resolvêssemos aquela situação. Mas estávamos tão nervosas que pioramos tudo. Em vez de fazermos as pazes, brigamos mais ainda. 

Resolvi tomar um banho e deixar as coisas como estavam. O Diego foi lá fora conversar com ela e, depois de um tempo, voltou para conversar comigo. Ele disse que eu precisava ser mais flexível porque não estava viajando sozinha. E eu me defendia alegando que o sentido da minha viagem era outro -- eu queria justamente aprender o desapego, e não ficar em hotel com diária a R$ 350

Eu estava arrumando as minhas coisas e a Cintia chegou, mais calma. Comecei a chorar. Explicamos nossos pontos de vista uma para a outra e, ao final, nos abraçamos, chorando. Pedimos desculpas e ficou tudo bem. Ela contou que, enquanto estava lá fora, o recepcionista perguntou:

-- Vocês chegaram hoje?
-- Sim -- respondeu a Cintia.
-- Ah, normal. Isso acontece sempre.  

Dizem que tem casal que se separa, que tem amigo que sai no tapa... Sempre por motivos idiotas como foi o motivo pelo qual brigamos. As pessoas chegam em Santiago de Compostela esgotadas e com as emoções à flor da pele. Tudo isso faz parte. E depois sempre fica tudo bem. :)

Depois de nós três tomarmos banho (que chuveiro incrível, meu Deus!) e conversarmos, saímos para comer. Já eram quase 22h e a lanchonete La Empanadilla & Co. (Rúa das Casas Reais, 15704), que era ali do lado, fechava às 23h. Corremos. E aí tivemos uma grande recompensa: a comida era maravilhosa! 


Quando voltamos para o hotel, foi a vez da choradeira do meu romance de verão que, sabemos, dificilmente "sobe a serra". A Cintia foi dormir e eu e Diego ficamos conversando até, sei lá, 2h da manhã. Estávamos tristes porque no dia seguinte teríamos que nos separar e não sabíamos quando nos veríamos de novo. Ele citou Madre Teresa de Calcutá, que dizia que ninguém tem o direito de entrar ou sair da vida de alguém sem deixar algo de si e sem levar algo do outro, e afirmou que eu podia ter a certeza de que ele estava levando algo muito especial de mim. Foi um momento lindo que eu guardarei pra sempre.

Dormimos feito anjos, naquelas camas deliciosas do hotel. No fim, apesar dos pesares, valeu a pena.  

Beijos,

Dia 10: Caminho de Santiago (Espanha) - De Salceda a Santiago de Compostela

No domingo, 7 de junho, acordei empolgadíssima para fazer esta última etapa do Caminho de Santiago, apesar de saber que teríamos que caminhar 29,9 Km.

A última etapa normalmente começa em O Pedrouzo, a 22 Km da Catedral de Santiago de Compostela. Como quisemos adiantar uma etapa, na noite anterior, ficamos em Salceda, que fica 8 Km antes de O Pedrouzo (para entender melhor, veja o mapa ao final do post). 

Como este trecho seria o maior de todos que fizemos, acordamos mais cedo que o normal e deixamos a pensão com o sol nascendo.



Saindo de Salceda, passamos pelos pueblos de Oxen, Ras, A Brea, Rabiña e O Empalme até chegarmos em Santa Irene, após 5,2 Km, onde fizemos nossa primeira pausa. Paramos em um restaurante, tomamos uma Coquinha e continuamos. Decidimos que tomaríamos café da manhã em O Pedrouzo, porque achamos que estávamos perto da cidade. Mas a cidade não chegava nunca.


Andamos mais 3 Km e finalmente vimos algumas construções. Só que, apesar de O Pedrouzo ser uma cidade de verdade, parecia fantasma. Não víamos ninguém pelas ruas e nada estava aberto. Tudo bem que era domingo, mas nem os restaurantes, com o tanto de peregrinos que passam por ali todos os dias? Ademas, já passava das 9h da manhã.

Vi um senhor passando e perguntei se ele sabia onde poderíamos desayunar. Ele indicou um restaurante a uns 200 metros à frente, que tinha acabado de abrir. Finalmente, pudemos comer um bocadillo de presunto y queso (hahaha). Descansamos por uns 20 minutos e seguimos.

Logo depois de O Pedrouzo, no meio do Caminho, encontramos um "memorial" feito por peregrinos, para homenagear seus entes queridos e amigos que faleceram. Deixei ali uma cruz de galhos amarrada com uma fitinha de Nossa Senhora Aparecida, em homenagem ao meu avô e à minha mãe.


Entre Santo Antón e Amenal, pegamos mais um bosque delícia (eu acho que os bosques são os trechos de melhor "piso" para caminhar e sempre ficava feliz ao andar pelas folhinhas) e, depois, começamos a ouvir umas explosões bizarras, que deviam ser de alguma pedreira (?) e que pareciam vindas de uma guerra.


Em Cimadevila, uma pedra esculpida anunciava a nossa entrada no município de Santiago de Compostela, deixando, assim, o Concello de O Pino para trás. 


Logo depois, já avistamos a famosa grade repleta de cruzes deixadas por peregrinos. No vídeo eu falei que faltavam 11 Km, mas me enganei. Faltavam 15 Km para a Catedral (errinho tão pequeno quanto os do Ibope, hahaha). 



A próxima parada que fizemos foi na cidadezinha de San Paio, depois de 8 Km desde O Pedrouzo. Caramba! Nunca tínhamos andado tanto sem nenhuma pausa! Mas não havia mesmo um único restaurante para pararmos. Neste, a dona entendia português e veio conversar com a gente -- e dar dicas de como ir até Fisterra. E, ali em San Paio, encontramos nossos amigos senhorezinhos mais queridos e divertidos de todo o Caminho. Eles:


Bebemos, descansamos, passamos protetor solar e seguimos em frente. O sol estava muito forte e o Caminho começou a ficar bem pesado. A partir dali, só subida (de novo!) e nossos corpos estavam doendo horrores.


Passamos por Lavacolla, Arroio, Vilamaior, TVG, TVE e, em San Marcos (faltando 5,5 Km para Santiago de Compostela), paramos em um acampamento para comer alguma coisa. Mas o pessoal do trailer que vendia hambúrguer foi tão grosso que decidimos não gastar nosso dinheiro ali. Tiramos os sapatos, descansamos por alguns minutos e saímos.

Em Monte do Gozo (4,8 Km para Santiago), paramos para tomar alguma coisa. Estávamos morrendo de fome, mas queríamos comida -- e ali só tinha uma barraquinha vendendo hot dog. No alto do Monte do Gozo, há um monumento em homenagem ao Papa São João Paulo II, construído por uma artista brasileira chamada Condesa Yolanda, por causa da Jornada Mundial da Juventude de 1989 -- quando o Santo Padre levou milhões de jovens para Santiago de Compostela.


Faltava pouco, mas não aguentávamos mais. Já tínhamos feito 25 Km e isso é muita, muita coisa!

Depois de Monte do Gozo, passamos por San Lázaro...


E chegamos na entrada de Santiago de Compostela.


Foi um choque. Não estávamos mais acostumadas às cidades grandes -- e ver aquele monte de carro, aquele monte de gente e aquele monte de casa de verdade (e não de pedra) nos deixou bem desnorteadas.

Santiago de Compostela é enorme e, para chegar à Catedral, é preciso andar muito. Eu e a Cintia estávamos tão cansadas e tão nervosas que acabamos discutindo pouco antes de chegar à igreja. Eu sabia que faltava muito pouco e não queria parar. Quando ela pediu para sentarmos para descansar, falei pra ela me encontrar na Catedral. E segui sozinha.

Quando cheguei ao centro da cidade, dei de cara com o Diego (o namoradinho que eu arrumei no Caminho) saindo de uma loja de souvenirs. Eu estava perdida, não sabia por onde ir e não via mais as setas amarelas do Caminho. Eu também estava nervosa e com as emoções à flor da pele -- por ter discutido com minha amiga e por finalmente ter chegado, depois de tanta dor. Então, Diego me acompanhou até a frente da Catedral.


A fachada da Catedral estava em reforma, mas o importante é chegar. E a emoção foi grande. Muito grande.

Uns dez minutos depois a Cintia chegou. Ficamos os três deitados no chão, apoiados em nossas mochilas, olhando para a Catedral, sem falar nada. Eu e a Cintia só chorávamos. Ficamos ali por quase uma hora.


O que aconteceu depois disso, eu conto no próximo texto. Tem muito babado por vir! :P

Este foi o trecho que fizemos neste domingo, dia 8 de junho, para finalizarmos o nosso Caminho de Santiago:


Não perca o próximo post!
E veja todos os textos do Caminho de Santiago aqui.

Beijos,

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

No sábado, dia 6 de junho, acordamos, em Melide, para começar o sexto dia de Caminho de Santiago. Até que eu não estava de ressaca -- o que foi impressionante porque eu não sou acostumada a beber e bebi muito na noite anterior.

O Diego foi buscar a mochila dele no outro albergue, que estava fechado na sexta-feira, e o esperamos para a caminhada na porta do nosso albergue O Cruceiro. Assim que ele chegou, iniciamos a etapa do dia.


Logo no primeiro quilômetro, em Santa Maria de Melide, encontramos uma igreja do final do século XII. Fizemos uma pausa para a oração e seguimos. Passamos pelos pueblos de Rio (onde tivemos que atravessar o río Catasol por um caminho de pedras), Raido e Parabispo e foi nesse trecho que paramos para tomar café da manhã.

Seguimos caminhando até Boente (o pueblo que pretendíamos ficar na noite anterior, mas a preguiça não permitiu a chegada). De Melide até Boente, andamos 5,7 Km.

Fizemos outra pausa, na Igrexa de Santiago de Boente, uma igrejinha linda, que tem lembranças de peregrinos de todos os lugares do mundo. Deixamos ali uma fitinha de Nossa Senhora Aparecida que a moça da igreja pendurou no braço de Jesus. <3

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Saindo da igreja, de Boente a Castañeda, pegamos uma subida tensa, muito tensa. O Diego saiu disparado na frente, enquanto eu me destruía para tentar alcançá-lo e a Cintia ficava para trás. Quando a subida acabou, havia um bar. Pedi pelo amor de Deus para o Diego parar ali e nos sentamos para esperar a Cintia. Quando ela chegou, nos despedimos do Diego. Ele queria chegar em O Pedrouzo naquele dia mesmo, ou seja, fazer duas etapas de uma vez, e nós só queríamos andar até onde conseguíssemos depois de Arzúa.

Despedidas, mesmo que breves, nunca são legais. Depois de trocas de abraços, beijos, "amei te conhecer" e "te espero em Santiago", Diego partiu. Nós duas ficamos mais um tempo no bar, onde conhecemos um casal de brasileiros. A mulher havia começado em Sarria e já estava com os pés totalmente destruídos -- e tinha perdido duas unhas! Mas ela estava de tênis (e não de bota), doida.

Seguimos, então, para Ribadiso, através de um bosque delicioso, onde passarinhos cantavam enlouquecidamente, seguido por um pasto cheio de vaquinhas lindas.

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Passamos por uma ponte medieval, sobre o río Iso, e chegamos a Ribadiso de Baixo. Já havíamos caminhado 11 Km e só faltavam 3 Km para completarmos a etapa do dia, que deveria ser de 14 Km (Melide-Arzúa). Ali mesmo, em Ribadiso, paramos para comer alguma coisa (e eu comi tortilla e não pão com presunto, viva!), e seguimos para Arzúa através de uma estradinha asfaltada em meio a fazendas lindas.

Foi então que eu comecei a chorar. Chorei, chorei, chorei e não parava mais. Pensava no meu avô, que havia falecido um mês antes, pensava em como eu queria contar pra ele sobre a minha viagem... Pensava na minha vida, na minha família, no meu trabalho, nos meus relacionamentos, em Deus... Foi a primeira vez que eu liberei os sentimentos assim no Caminho de Santiago. O corpo já não doía mais tanto, então, as emoções começaram a se expor.

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Quando nos aproximamos do destino, vimos que Arzúa era uma cidade grande (pela primeira vez vimos prédios na Galícia) e nem cogitamos parar. Sabíamos que, se parássemos, ficaríamos. Em Arzúa, todos os Caminhos de Santiago (o Primitivo, o Inglês, o Caminho do Norte) se encontram. A partir dali, tudo estaria cheio.


De Arzúa a Taberna Vella (5,2 Km), pegamos outro bosque delicioso, que nos protegeu do sol escaldante das 15h (o sol é terrível das 14h às 17h).


E logo ali encontramos um lugarzinho fofíssimo para descansar: uma casa particular, que tinha, no quintal, uma "vendinha sem vendedor" (os produtos tinham seus preços, mas cabia ao peregrino ser honesto ou não. É tudo na base da confiança mesmo).

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Peguei um café por 1 euro e nos sentamos com um menino que estava encostado ali. Ficamos conversando enquanto ele esperava os amigos dele e ele nos contou que saiu da cidade dele, no interior da França, próximo a Paris, e estava caminhando havia mais de 40 dias. Só que ele e os amigos não se hospedavam em lugar nenhum -- eles dormiam em redes entre as árvores. Que loucura! Into the Wild total -- e eles pareciam mendigos, na verdade.

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Ficamos um tempo conversando com os seis mendiguinhos Alexander Supertramp, e saímos em busca de uma hospedagem. Já estávamos cansadas e queríamos parar no primeiro albergue que encontrássemos, afinal, já tínhamos andado mais de 20 Km.

Só que dali pra frente, não havia nada que não fosse mato. E começou a bater o desespero. Chegamos a um restaurante que eu achei que era hospedagem e não era.  


Perguntamos à dona do restaurante onde era a hospedagem mais próxima e ela nos disse que havia uma pousada a 4 Km dali. Quatro quilômetros? Putz! Ela telefonou para a pousada e foi informada de que não havia mais plazas em nenhum quarto, mas que poderiam nos oferecer uma habitación doble (quarto duplo) por 45 euros, se fizéssemos a reserva naquela hora. Achamos caro e saímos caminhando.

Quando chegamos em Salceda (onde era a tal pousada), a Cintia começou a passar mal. Caiu a pressão dela e eu mandei que ela esperasse sentada e que comesse alguma coisa até que eu encontrasse um lugar para ficar. Vi uma placa indicando um albergue turístico e caminhei 800 metros. Quando cheguei lá, o lugar parecia um resort e foram super grossos comigo quando perguntei se havia camas. Pelo visto era um hotel de gente rica e a recepcionista achou que eu era uma peregrina mendiga. No fim, não tinha lugar pra nós. Liguei pra Cintia e disse para ela me esperar que eu estava voltando.

Quando cheguei aonde ela estava, um morador dali das redondezas estava ao lado dela, telefonando para uma pensão que havia ali pertinho. Ele disse que até havia um albergue bem próximo, mas que àquela hora já estava lotado. A pensão tinha quartos sobrando. Ele fez a reserva e, como a Cintia já estava recuperada (apesar de exausta), seguimos o Caminho até chegarmos à tal pensão. Passamos pelo tal El Albergue de Boni e realmente estava cheio. Mas a pensão era a 100 metros dali.

A Pensión Casqueiro II só tinha quartos duplos ou triplos. Os duplos já estavam tomados e nos ofereceram o triplo por 40 euros. Não tínhamos outra opção -- e já passava das 20h. Ficamos.


Mas valeu a pena. Depois do banho, descemos para jantar (um misto quente e uma cervejinha cada uma, mas ok) e fomos super paparicadas pelo dono da pensão, que nos deu licores de ervas e chocolate (além do cachorrinho lindo dele que grudou em nós e não largava mais). Enquanto eu me esquentava com o álcool, porque começou a fazer um friozinho chato, passei a refletir sobre Deus. Eu não tinha mais dúvidas: Ele existe. Isso ficou muito claro pra mim neste dia. Eu via Deus na natureza, nas pessoas, em todos os lugares. E estava feliz.

Dia 9: Caminho de Santiago (Espanha) - De Melide a Salceda

Quando o sol se pôs, às 23h, subimos para o quarto. Eu não via a hora de chegar em Santiago de Compostela e agradecer a Deus por tudo aquilo que eu estava vivendo. O que eu não sabia é que o dia seguinte seria pesado, muito pesado. Só que isso eu conto amanhã.

Este foi o trecho que fizemos neste dia, com 27 Km:


Veja todos os posts do Caminho de Santiago aqui.

Beijos,

Dia 8: Caminho de Santiago (Espanha) - De Palas de Rei a Melide

Em nosso quinto dia de Caminho de Santiago, 5 de junho, acordamos às 8h e não queríamos levantar de jeito algum. Aquela cama do Albergue San Marcos estava tão maravilhosa que foi difícil criar coragem. Minhas panturrilhas ainda estavam muito vermelhas, mas decidi continuar mesmo assim (contei que, no dia anterior, elas estavam "pegando fogo" e eu não sabia o que era). 
Como sabíamos que a etapa deste dia tinha apenas 14 Km, estávamos mais tranquilas. O plano era cumprir a etapa e caminhar mais o quanto aguentássemos. E assim fomos...


Saímos de Palas de Rei, caminhamos 2,1 Km até Carballal e mais 1,5 Km até San Xulián do Camiño


Você deve ter percebido que, na Galícia, há cemitérios em todas as igrejas. Era costume nos pueblos, que a paróquia local arcasse com o enterro de seus fiéis - principalmente daqueles que não tinham onde cair mortos (literalmente). 


Como estávamos já na reta final do Caminho de Santiago, todos os trechos estavam sempre cheios de peregrinos - inclusive, de peregrinos à cavalo (vimos muitos, muitos cavalos nesta etapa!). E os pueblos, entre uma floresta e outra ou entre um campo e outro, já eram mais civilizados, com mais casas e mais habitantes.


Demos uma descansadinha em Casanova, onde paramos para comer um bocadillo con jamón y queso (novidade! hahaha) e, de Casanova a Furelos, andamos mais 7,3 Km. Fizemos aquela pausa para a foto e para conhecer a igreja local, e partimos para Melide.


Esta foi uma etapa tranquila e, apesar do sol, que dobra o nosso cansaço, conseguimos cumpri-la antes das 14h. Chegamos em Melide decididas a almoçar e a partir para adiantarmos a etapa do dia seguinte. Afinal, 14 Km não eram nada.


Passamos em um supermercado e compramos algumas bobagens para comer porque não queríamos comer polvo. Se você gosta de polvo, aproveite, porque Melide é a cidade do polvo e só há pulperías por todos os lados - eu passo. Então, com nossas comidinhas prontas e industrializadas, nos sentamos na praça para almoçar.


Quando terminamos de comer e esticamos nossas pernas, bateu uma preguiça... Ficamos um tempão ali, até que decidimos nos levantar e conhecer a igreja da cidade. Encontramos um casal de alemães que conhecemos em algum ponto do Caminho e que nos aconselhou ficar em Melide. Era bobagem seguir adiante. Poderíamos aproveitar para descansar e, no dia seguinte, andar além da etapa. De tanto que enrolamos para sair da cidade, a preguiça começou a nos dominar - e resolvemos ficar. Olhamos o albergue em que o casal amigo estava (Albergue San Anton), mas não gostamos - eles só tinham quartos duplos, com banheiro compartilhado, por 35 euros.

Fomos, então, procurar um lugar para ficar. Chegamos ao albergue municipal (6 euros), mas os banheiros eram mistos e não curtimos. Fomos olhar o albergue O Cruceiro (10 euros) e nos apaixonamos. Isso porque este albergue oferece vários serviços, como lavanderia, internet etc. e tal e porque o quarto que a recepcionista pegou para nós duas não tinha ninguém, apesar de ser um quarto compartilhado.

Pronto. Subimos as mochilas e trocamos de roupa correndo para colocar tudo para lavar. De repente, o pânico: cadê minha GoPro?!? Contei no vídeo:


Passado o susto, ficamos esperando nossas roupas serem lavadas, enquanto tomávamos um vinho no restaurante que fica embaixo do albergue. Só que nos esquecemos da vida ali. Pedimos uma garrafa, depois outra... E, pela primeira vez no Caminho de Santiago, enchemos a cara. Acho que estávamos precisando nos divertir mesmo, depois de tanto sacrifício. E aí conhecemos o Diego, um médico colombiano que estava fazendo o Caminho sozinho. Ele estava na mesa ao lado, rindo das nossas bobagens, e a Cintia o chamou para se sentar com a gente.


Depois de altas risadas e conversas filosóficas, nos demos conta da hora. Já eram quase 22h30 e o albergue do Diego fechava às 22h (o nosso continuava aberto até às 23h). Fomos com ele até a porta do albergue dele, que era ali pertinho, e demos com a cara na porta. A solução foi ele ficar no nosso, que tinha muitas plazas sobrando.

Então, graças à nossa preguiça (que não nos deixou continuar caminhando), à Cintia (que o chamou) e ao albergue fechado, eu e o Doctor Corazón (como o apelidamos) ficamos juntos. E ele explicou o que tinha acontecido nas minhas panturrilhas. Eram os músculos mesmo. Algumas fibras se esticaram demais e se romperam. Eu deveria fazer repouso, sim, mas não era nada grave - só tinha que tomar cuidado para não ficar com hematomas. Por isso, ele me deu uma pomada que diminuiu a vermelhidão logo de cara. Três dias depois eu já não teria mais nada nas pernas.

Fomos dormir quase 2h da manhã. Mas valeu. Foi o dia mais divertido do Caminho. :)

Nesta etapa, este foi o trajeto que fizemos:



Por hoje é só.

Veja todos os posts do Caminho de Santiago aqui.

Beijos,

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei

Em nosso quarto dia de Caminho de Santiago (aniversário da Cintia), fomos as últimas a levantar da cama. Acordamos cedo, mas achamos melhor esperar todo mundo se arrumar e usar os banheiros para, depois, nos aprontarmos em paz. Este Albergue de Portomarín é municipal e, quando dá 8h da manhã, o povo da limpeza expulsa todo mundo. Sobre este albergue, minha opinião está no vídeo: 


A cidade de Portomarín é uma graça, mas não tivemos tempo de "turistar" (deveríamos ter feito isso no dia anterior, se não tivéssemos chegado tão tarde - e tão cansadas).

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Igrexa de San Nicolao ou San Xoán (na Galícia, a letra X substitui a J)
Saímos com as roupas que havíamos lavado no chuveiro do albergue penduradas em nossas mochilas. Essa é uma prática comum entre os peregrinos. Fica assim, uma favelinha particular.

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei

Mas não demos muita sorte porque estava frio e pegamos uma super neblina (ou seja, as roupas não secavam nunca!). De Portomarín até Toxibo (passando por Fábrica de Tijolos), onde paramos para descansar em um banco de pedra, o trecho possui 5 Km de subida (120 m) - e foi bem cansativo.

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Neblina de filme de terror
Apesar do corpo doer, já estávamos no "piloto automático" e até que andamos mais rápido do que o normal. Mas chegamos a uma conclusão:


Brincadeiras à parte, seguimos para Gonzar, a primeira cidade desta etapa, que fica a 8 Km desde Portomarín. Lá, "todos os peregrinos do mundo", inclusive vários que havíamos conhecido nos dias anteriores, estavam tomando café da manhã - e, óbvio, paramos para comer também.

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Café-Bar Gonzar
Seguimos subindo mais 147 m de altitude em 5,5 Km, até chegarmos em Vendas de Narón, onde paramos para descansar outra vez, no albergue/restaurante Casa Molar. Tomamos uma Coca-Cola, andamos mais um pouco e paramos novamente, no albergue O Cruceiro, onde eu almocei um hambúrguer delicioso. Perceba que mantive minha saudabilidade no Caminho. :P

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Albergue/restaurante O Cruceiro
Este foi o dia em que fizemos mais (e mais longas) paradas. Não podíamos ver um restaurante, uma vendinha ou um albergue, que nos sentávamos e esticávamos as pernas. Em Ligonde, a 3 Km de Vendas de Narón, paramos no Albergue Fuente del Peregrino para encher nossos cantis de água - e o pessoal lá é adorável!

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Fuente del Peregrino
De Ligonde a Portos, andamos mais 3 Km. Achamos que Portos era uma cidade, mas era só um micro-vilarejo (pra variar). Pelo menos tinha um albergue lindo, chamado A Paso de Formiga, onde paramos, claro: desta vez, para tomar uma cervejinha (em comemoração ao aniversário da Cintia) e tirar as botas.


Faltavam apenas 5,6 Km para Palas de Rei - eu mal podia acreditar que "já" tínhamos andado quase 20 Km! E seguimos. Passamos por vários pueblos minúsculos (Lestedo, Os Valos, A Brea, Avenostre e O Rosario) e, quando menos percebemos, vimos a placa de "Bienvenidos a Palas de Rei".

Paramos na primeira hospedaria que vimos (La Cabaña), que era linda de morrer (e que, na verdade, não era albergue mas, sim, hotel), e entramos para ver o preço. Pois 60 euros por um quarto duplo não dava. Não mesmo! Andamos mais um pouco e vimos o albergue municipal. Pensamos, pensamos e não sabíamos se andávamos mais ou ficávamos por ali mesmo. Até que encontramos nosso amigo francês, que conhecemos em Tríacastela. Ele estava voltando de algum mercado, com sacolas na mão, e perguntamos se, de onde ele vinha, havia outras opções de albergue. Ele disse que sim, mas que estava hospedado no municipal. Minhas panturrilhas estavam ardendo e eu não sabia o porquê (quase descobri mais tarde), mas mesmo assim, decidimos andar mais um pouco. E chegamos ao centro de Palas de Rei.


Escolhemos um quarto duplo no albergue San Marcos. Era uma "exigência" de aniversário da Cintia e estávamos mesmo muito cansadas - precisávamos de um pouquinho de conforto. Tomamos banho correndo, nos trocamos e fomos à igreja, que ficava bem na frente do albergue. Às 20h, assistimos à missa, que foi linda, linda, linda (com o padre dando a bênção em todos os idiomas!), e fomos falar com os padres na sacristia. Demos a eles pulseirinhas de Nossa Senhora Aparecida e ganhamos um chaveiro cada uma, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do padre mais velhinho. Até me emocionei. Eu sou devota de Perpétuo Socorro! <3

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei

De lá, fomos jantar no albergue Castro, para comemorar, de verdade, o aniversário da Cintia (hahaha).

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei

Tomamos um vinho, comemos e ficamos batendo papo com o dono e com o garçom. Foi quando me dei conta de como estavam minhas panturrilhas. Lembra que comentei que estavam ardendo? Olhei para elas e me assustei com a vermelhidão. Perguntei se eles sabiam o que era, se isso era comum entre peregrinos, e disseram que parecia urtiga (urticária) e que eu deveria passar na farmácia e comprar alguma pomada antialérgica. Mas quem disse que havia alguma farmácia aberta? Andei a cidade toda (que não é muito, mas...) e não achei nada.

Quando voltei para o albergue, perguntei à recepcionista se ela sabia o que era. "É... parece que você raspou a perna em alguma planta venenosa", ela disse, e me deu um creme cicatrizante que ela tinha no armário. Fiquei encanadíssima e procurei o problema no Dr. Google. Aquilo não estava com cara de alergia, não. A vermelhidão parecia vir de pequenos vasinhos estourados - o problema era interno e não externo. A resposta do Dr. Google? Contusão muscular. Também achei estranho porque não estava doendo (só ardia). E em todos os links que encontrei, a maneira de tratá-la era com repouso total. Isso eu não poderia fazer, estava fora de cogitação. Então dormi pensando "vamos esperar para ver como essas panturrilhas estarão amanhã". Paciência.

Dia 7: Caminho de Santiago (Espanha) - De Portomarín a Palas de Rei
Bizarro :(
E dormimos muitíssimo bem, depois desses 25 Km em 11 horas de caminhada. Abaixo, a distância que percorremos:


Por hoje é só. Veja todos os posts do Caminho de Santiago aqui.

Beijos,

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