Cuba

O que vi de Cuba (Lu)

segunda-feira, janeiro 21, 2013

"E aí? Gostou de Cuba?"
Pela primeira vez em uma viagem, senti vontade de voltar pra casa no meio da estadia. Cuba me deixou triste por muitas vezes. Cheguei a chorar em pleno centro da cidade, por dó ou por raiva de não poder fazer nada para "salvar" aquela gente. Mas é claro que me diverti horrores, matei minha vontade de dançar Salsa até as pernas tremerem de dor e conheci pessoas incríveis também, que ficarão para sempre guardadas em meu coração.

Antes de viajar, ouvi muita gente falar da alegria dos cubanos, da magia, da fantasia, da festa, da música, da beleza... Não vi muito disso por lá, não. Ou melhor, vi. Mas vi nos lugares dedicados a turistas. Alegria sincera eu vi pouca. Acho, na verdade, que eles riem para não chorar. A impressão que tive foi a de que o povo vive por inércia, esperando, talvez, por um milagre qualquer. Ou não esperando por nada. Todos os cubanos com quem conversamos, nos disseram que vivem o hoje, sem pensar no amanhã, sem fazer planos. Os cubanos não têm sonhos. E o que é uma vida sem sonhos?

Crianças que não gostam de brincar. 
Não quero falar de política nem vou misturar as coisas, só me importa os sentimentos que Cuba me despertou e a impressão com a qual voltei de lá (a qual quero compartilhar com você agora). Talvez, quem vai à Cuba por um pacote de uma agência, para ficar em um hotel ou resort cinco estrelas, pagando o preço turístico dos serviços de lá e não tenha esse contato tão próximo com o povo, não perceba que tudo ali é uma grande farsa, uma grande ilusão. Não critico, nem julgo nenhum tipo de viagem ou perfil de viajante. Eu adoro conforto e, quando posso, pago por ele, sim. Mas, mesmo com conforto, mesmo pagando caro, acredito que eu só conheço um lugar de verdade quando estou em contato direto com seu povo (pobre ou rico). Foi assim nos Estados Unidos, foi assim nos Emirados, foi assim no Líbano e será assim em qualquer lugar que eu visitar. Quando chego em qualquer destino, quero conhecer novos amigos.

Foi por causa disso que, em nossa primeira noite em Havana, eu puxei papo com a Míriam, dentro do almendrón (o táxi popular dos cubanos), perguntando aonde ela estava indo. De repente, estávamos todos andando juntos pela Rampa, pelo Malecón e madrugada adentro, pelas ruas de Havana e na balada.
No dia seguinte, ela foi nos encontrar onde estávamos hospedadas e nos guiou por onde queríamos ir. Ela foi legal demais, o tempo todo, prestativa demais e, enquanto eu ainda não havia conhecido o "outro lado de Cuba", vi nela uma amizade sincera, que permaneceria mesmo com o fim da viagem.

Em Varadero, conheci o Yoan. Passamos uma noite inteira juntos, dançando, bebendo, rindo... No dia seguinte, ele apareceu de surpresa em nosso hotel, porque queria sair comigo de novo. "Apaixonou!", pensei. Mas eu havia gostado dele. Bastante. Nossa segunda noite juntos foi mais que especial e muito marcante para mim. Eu acreditava que havia rolado algo forte entre nós, de verdade. Tanto que, no dia seguinte, lá estava ele, passando a tarde ao meu lado, no hotel. Tivemos que partir de volta para Havana e, quando eu estava quase chorando ao me despedir, ele disse: "Vou para Havana no sábado e quero passar o dia e a noite com você". Fiquei feliz porque sabia o sacrifício que ele teria de fazer para viajar até Havana. Já explico.

Até aí eu só pensava que "os cubanos se apegam demais!". Isso me pareceu, no fundo, uma grande carência. Ou, mais além, nós, estrangeiras, representamos uma salvação, um sonho, uma fuga -- e, por isso, eles não querem deixar a oportunidade escapar. Será que é isso?

"Me dá seu telefone que eu te envio um SMS assim que chegar em Havana, para dizer o número do meu quarto e você, então, poder me ligar no hotel. Pelo menos não pagamos para enviar SMS", falei. Ele disse: "eu pago CUC$ 1 para responder". O quê? CUC$ 1 = R$ 2!  Sabe o que significa CUC$ 1 para um cubano? Um dia de trabalho! Sim, eles recebem em torno de 25 a 30 dólares por mês. Já pensou o sacrifício que um cubano não tem que fazer para viajar de uma cidade a outra, se uma passagem de ônibus custa CUC$ 10? Surreal, não é? Então eles pegam carona, vão parando de cidade em cidade até chegarem onde desejam.

Quando nos despedimos, ele perguntou se eu não teria CUC$ 2 para ele pegar o ônibus de volta à casa dele. Quatro reais não significam nada pra mim, então eu dei. Mas foram esses R$ 4 que me fizeram refletir o resto do dia e me deixaram tão triste. Durante todo o caminho até Havana, eu fiquei com aquilo na cabeça e me lembrei dos casais de cubanas e senhores europeus que eu vi passeando pelo hotel de Varadero. O turismo sexual em Cuba rola solto. Nós até brincávamos quando víamos um casal assim, dizendo que havia ali um "amor puro, amor verdadeiro" (ironicamente, claro), mas no fundo ficávamos chocadas. E o mesmo aconteceu na balada, quando vimos vários negões sarados e bonitos com umas gringas loiras, feias. É simples: "te dou sexo e 'amor', você me paga tudo". Até que ponto o Yoan estava sendo sincero comigo? Me senti tão mal que até chorei antes de dormir. Será que tudo que ele queria era quatro reais? Será que a Míriam realmente gostou da gente ou ela estava brincando de guia de turismo só para ganhar uns "regalitos" e para que pagássemos a balada, a bebida e a comida dela? Não dá pra saber.
O pior é que os próprios cubanos sabem que temos consciência disso. Um cara se aproximou de mim, me convidando para sair, porque me achou linda (ah, quantas vezes eu ouvi isso! Foram todas sinceras? Duvido). Quando eu disse que não, que já tinha um "novio" em Cuba, ele respondeu "mas eu pago tudo!", como se o cavalheirismo de pagar algo para uma mulher fosse a coisa mais rara do mundo (e lá é!).

Eu nunca havia me sentido usada na vida e, apesar de não ter oferecido grandes coisas a ninguém em Cuba, eu não suportava mais os elogios das pessoas, a aproximação, o assédio. Ao final da viagem, todos me soavam falsos. Eu, que cheguei em Havana distribuindo sorrisos e abraços, passei a ignorar algumas pessoas como se não entendesse o idioma delas. Troquei as risadinhas por bufadas de impaciência quando pedintes se aproximavam a cada dois passos que dávamos nas ruas, para nos pedir um sabão, um presentinho, CUC$ 1. A raiva que crescia dentro de mim não era das pessoas, mas da situação. Eu queria ajudar, mas não tinha como ajudar todo mundo! Fui com o meu dinheiro contado e levei dez sabonetes na mochila para sair distribuindo. Se déssemos uma moeda para um, dois segundos depois aparecia outro pedindo. Não tínhamos como dar conta e acabávamos dando patadas como resposta.


Mas vamos supor que tudo o que rolou de sentimento ali tenha sido sincero. Eu não posso nem tenho o direito de alimentar alguma esperança nas pessoas que me conquistaram de que nos reencontraremos um dia. É triste dizer isso, afinal, eu falo com todos os amigos que fiz em todas as viagens pelo menos uma vez por semana -- e sempre fazemos planos de nos ver novamente. Primeiro porque não pretendo voltar (pelo menos não tão cedo, talvez quando eu já tiver viajado tudo que eu quiser), segundo porque sei que eles nunca terão dinheiro para vir para o Brasil. Por mais que o governo tenha liberado que o povo cubano saia do país, quem, com um salário de 30 dólares, conseguirá juntar dinheiro para comprar uma passagem?

Antes de ir à Cuba eu conheci o Maykel pela internet (acho que ele é um dos únicos cubanos que está no Facebook), mas infelizmente não conseguimos nos encontrar lá. Nós nos falamos quase todos os dias, ele com aquela internet precária, lenta, às vezes diz "Lu, preciso desligar porque meu tempo de conexão está acabando". Quando eu preciso sair, sinto pena de deixá-lo lá porque sei que esta comunicação é um sacrifício para ele. E quando ele pergunta "quando vou encontrar minha amiga brasileira?", fico sem saber o que dizer.

Voltando ao Yoan, ele não chegou à Havana como prometeu. Isso porque ele foi detido pela polícia no meio do caminho. "Mas, Luciana! Você estava esperando um criminoso?". Quer saber qual crime ele cometeu? Ele estava com uma turista (e estava sem graça de me contar). Pois é. Cubanos não podem andar com turistas, principalmente cubanos homens com turistas mulheres. Se você perguntar o motivo, eles dirão que essa lei é para preservar as turistas de serem estupradas ou assaltadas. Ingênuos, não? É claro que essa lei é para impedi-los de ter acesso à informações do mundo. Quando um cubano é pego com uma turista pela primeira vez, ele é fichado. Na segunda vez, cadeia. E pra você ver como isso não é lorota, conhecemos uns brasileiros no voo da volta, que contaram que estavam tomando umas cervejas em um bar com uns cubanos, quando um policial chegou e levou um deles. Triste. Muito triste.

Uma coisa é fato: a segurança lá é incrível! Você pode andar a pé de madrugada, sem medo algum. E a criminalidade é baixíssima. Quase não existem casos de assalto, estupro ou qualquer outro mal que vemos tanto em nossos noticiários. Até presenciamos o caso de uma gringa que perdeu a câmera fotográfica na balada e os seguranças só sossegaram quando a encontraram (nas mãos de um cubano) e a devolveram à ela.

Cuba tem praias lindas, mas paisagens horríveis. Tudo caindo aos pedaços, de carros a igrejas; prédios, que um dia foram lindíssimos, com uma arquitetura incrível, abandonados e jogados às traças. Dá dó. Muita dó. O governo só preserva o que lhe convém (como é o caso do centro restaurado, totalmente dedicado ao turismo).


A pobreza é de chorar. E só de pensar que um cubano precisa trabalhar dias pra conseguir comer um hambúrguer, agradeço a Deus por ser brasileira. E por falar em hambúrguer, eles nunca ouviram falar do McDonald's. Não existir McDonald's em Cuba é compreensível, mas cubanos não saberem da existência da maior lanchonete do mundo é um pouco chocante.
Mas não há acesso à informação lá mesmo. Eles assistem a um noticiário de 30 minutos por dia, com notícias (provavelmente) controladas pelo governo -- como tudo, de emails a correspondências. Comprei o principal jornal diário de lá, só por curiosidade. Na capa, a manchete "Che habla de Camilo" (uma entrevista com Che Guevara como se ele ainda estivesse vivo!). Um absurdo! Em todas as "livrarias", você só encontra as caras do Che e Fidel estampadas nas capas dos livros. Será que se os cubanos lessem sobre a Primavera Árabe, se revoltariam contra o governo? Eu realmente acho que eles não sabem o poder que têm nas mãos. Quando souberem, Cuba acaba. 


O povo é talentosíssimo! Todas as pessoas sabem dançar, cantar, tocar instrumentos... E como elas usam esse talento? Tentando trocados no meio das ruas e nos restaurantes de Havana Vieja. Quantas vezes eu tive vontade de trazer um cubano para o Brasil, para dar aulas de dança? Mal sabem eles o dinheiro que ganhariam e o sucesso que fariam por aqui. Melhor nem saberem. 


Cuba foi uma grande experiência pra mim. Foi a primeira viagem que me fez refletir por dias e dias sobre a política e a sociedade de um país. Se vale a pena? Vale, claro! Sempre vale. Vai de você escolher o que lhe agrada mais. E tenha em mente que ali não é o Caribe que você vê nas revistas de turismo. O Caribe é outra coisa. E Cuba pode ser outra coisa também, basta você enxergar apenas o que quiser ver.

Beijos,

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